Heterônimos

Cruz na porta da tabacaria!
[…]
Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou[…].

(Álvaro de Campos)

É engraçado como algumas coisas que aprendemos ao longo dos anos passam a compor a paisagem dos nossos pensamentos. Esse poema e um deles, não sei se o primeiro contato que tive com ele foi no ensino fundamental ou médio, provavelmente no primeiro. E toda vez que há um falecimento, como o gatinho ou uma conhecida e até mesmo uma dessas tragédias super divulgadas na mídia esse texto fica surgindo na minha mente.

A lembrança é tão viva em minha mente que consigo até ouvir a voz saindo do rádio enquanto acompanhava o texto por escrito. Não decorei todo poema, mas as ideias que ele transmite carrego comigo. Provavelmente é muito mérito de bons professores que tive que mostraram, ensinaram a valorizar e incentivaram de diversas formas o gosto por grandes escritores e obras marcantes. 

E junto com a lembrança desse poema, me veio a invejinha de Fernando Pessoa. Nada demais, é só que minha vida ia ser mais organizada se eu me dividisse em heterônimos como ele, muito mais. Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares todos diferentes e peculiares habitando uma mesma pessoa. Genial ou transtornado, vai saber, tudo questão de ponto de vista.

Me faria perder o título do blog um pouco de ordem aqui, mais fica fácil de imaginar que as ideias seriam mais organizadas, ficava melhor até para quem convive comigo, eliminava a auto sabotagem. Por exemplo, se eu me dividisse em uma esportista e fitness, na outra adoradora de tecnologia e engenharia, uma voltada para leitura e humanas e outra para os sociais da vida tudo ficaria bem mais fácil.

Não só para mim, mas também para os meus amigos. Quem quisesse me chamar para uma aula de cross fit, fala diretamente com a esportista e ela de cara vai ficar empolgada.É como se houvesse um atendimento eletrônico que já encaminhasse para o setor correto sem interferência dos demais setores que podem ser tendenciosos e interesseiros ao lidar com assuntos distintos.  

O problema é que se eu me dividisse em 4, precisaria de um tempo multiplicado no minimo por quatro para aguenta-lás. Outra dificuldade seria dissociar a personalidades, pois a principio categorizei as “múltiplas eu” de acordo com ocupação e como dividir entre elas minha personalidade e ainda corre risco de competição entre elas, quem sabe, uma eleita como a predileta e as demais insatisfeitas.

Enfim, definitivamente não dá. Me dividir em quatro ou mais parece ter o poder de multiplicar meu defeitos e reduzir meu tempo. Nunca se sabe se iria extinguir o Caos eu aumentá-lo drasticamente. E, é tão problemático lembrar de aniversários de amigos, parentes, que as vezes esquecemos até nome de pessoas importantes se acrescentassem mais datas de aniversário internas não seria nada fácil.

É formidável ler Fernando Pessoa e seus heterônimos, conheço bem pouco, apenas superficialmente, nem sou da área e acho incrível a minucia e o quão habilidoso pode ser um escritor na habilidade de conceber e compreender um personagem. Mas incapaz de lidar até mesmo com as bipolaridades de humor feminino, me resta apenas admirar e cultivar a invejinha boa desse grande legado.

😉

 

 

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