Quando escolhi a engenharia

Desde a quinta ou sexta série do ensino fundamental eu vivia discorrendo animadamente sobre o meu interesse em cursar psicologia. Já imaginava temas de mestrado e doutorado relacionando física quântica e psicologia e imaginava o quão interessante podia ser esse estudo. Não que eu tivesse informação suficiente para entender desses assuntos e saber como funcionava o curso e as especializações na faculdade da região. Era mais um desejo.

Sempre me interessei por literatura, filosofia e sociologia. Já história e geografia nunca conseguiram me empolgar e era apenas agradável quando tínhamos a sorte de conseguir um professor dinâmico e divertido. Ainda assim, mesmo não sendo uma grande estudiosa, nunca detestei exatas, me interessava e me desafiava muito. Mas como boa leitora e pouco disciplinada para exercitar matemática e física, devota do estudo de véspera, as notas em humanas eram sempre melhores.

Lembro que enquanto fazia exercícios de matrizes comemorava que faria psicologia e isso sairia da minha rotina, só seria necessário para o vestibular. Sem contar os tais números complexos que pareciam uma absurda invenção oriunda do ócio. Já os trabalhos sobre filósofos, interpretações de textos clássicos e até livros do realismo/ naturalismo me distraiam facilmente no final do ensino médio.

E o terceiro ano é um período intenso e nostálgico, cheio de duvidas. Estudava no colégio militar, era o sétimo e ultimo ano lá e já sentíamos saudades e o peso da despedida dia pós dia. A farda, a formatura, a educação física, a catraca, o motor, tudo nos incitava saudade. Comemorávamos a ultima prova de cada disciplina, o ultimo dia da infantaria como aluno, da artilharia, da bandeira, do soldado. E frequentemente os eventos terminavam em choradeira de uma turma de nostálgicos. Foi um ano mágico.

Ser aluno de um colégio militar impõe uma identidade tão grande junto a um respeito da sociedade que ao se despedir dessa representação vem um sentimento de crise gigantesco. Aliado a isso vem a insegurança de prestar vestibular e aguardar resultado, sem saber se fez a escolha de curso adequada. É um período de duvida, saudade e insegurança, depois de sete anos em um mesmo lugar, começar do zero para construir novamente.

Para piorar no final do terceiro ano foi acordado que o ultimo bimestre o terceiro ano seria dividido por áreas para dar enfase nos estudos das matérias que faríamos prova discursiva de acordo com a opção de curso no vestibular. E eu que havia escolhido psicologia teria uma redução em termos de aulas de física e matemática e um acréscimo de historia e geografia. Tal perspectiva não me agradou e comecei a repensar minha escolha.

Outro fator relevante foi a necessidade que comecei a sentir de independência, sair de casa, receber salário, soldo qualquer coisa que me permitisse um pouco mais de liberdade. Foi ai que os concursos militares começaram a me atrair e comecei a perceber que exatas em geral seriam um ferramenta importante para mim. Também comecei a pensar nas dificuldades que poderia enfrentar no mercado de trabalho como psicologa, como abrir escritório, atrair clientes, entre outros.

E na semana de optar por um curso para prestar vestibular, para surpresa de todos escolhi a engenharia elétrica, por acaso o curso em que meu pai havia formado. O final do terceiro ano passei em uma turma com muito mais meninos que meninas, o que é bem comum em cursos de exatas. E tudo que falei que não ia precisar mais, de matemática ou física se tornaram extremamente importantes na minha rotina.

Sempre gostei de aprender, não acredito que eu tenha negligenciado nenhum dos conteúdos de exatas quando meu objetivo era psicologia. Mas não tive a preocupação de me tornar hábil com esses conteúdos que de inicio me deixaram insegura. Mas o terceiro ano foi para mim em termos de conteúdo e disciplinas o mais fácil. Não tive muitas dificuldades e nem fiz muito esforço, acho que foi um ano que a responsabilidade pesou e a atenção em aulas e a consciência da aproximação do vestibular contribuíram para o aprendizado.

Além do vestibular, fiz o programa intensivo seletivo misto, PISM, que é o vestibular seriado da universidade federal local. É o curso que eu escolhi tinha uma relação candidato baixa, não era preocupante. A universidade acabara de reformular os cursos de engenharia elétrica e dividir em cinco habilitações que eu não sabia a diferença e escolhi uma pelo nome legal: Energia. Essa que eu havia escolhido era noturna e eu imaginava que isso podia ser bom parar possibilitar estagio ou algum possível trabalho.

Sempre brinquei que escolhi a engenharia elétrica pela jaqueta. Realmente sempre observei a jaqueta com a engrenagem com o raio no meio, sempre achei bonita. Mas a minha escolha pelo curso não foi muito por conhecimento e ainda que criem palestras, visitas técnicas e oficina profissionais não acredito que no terceiro ano um jovem esteja pronto e capaz de fazer a escolha de curso.

Fiz o vestibular e PISM e aguardei por um período que me pareceu gigantesco os resultados saírem. Passei pelo ENEM em ciências exatas e me matriculei para garantir enquanto não saia o resultado do PISM. Quando saiu o resultado do PISM me matriculei em engenharia elétrica e isso deu inicio a um longo período da minha vida, ainda não finalizado e que tem sido, em geral, agradável.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s