O perdedor

“Olha lá, quem acha que perder
É ser menor na vida
Olha lá, quem sempre quer vitória
E perde a glória de chorar
Eu que já não quero mais ser um vencedor
Levo a vida devagar pra não faltar amor”

O vencedor – Los Hermanos

E hoje foi dia de experimentar uma nova sensação. Apos algum tempo de nervosismo, mais ainda de indecisão, topei, após um treino longo que me deixou dolorida por um bom tempo, me inscrever para um campeonato de luta, muito similar ao jiu jitsu convencional, sem kimono. Não nego, passei o sábado todo de estomago embrulhado só de pensar no dia seguinte. Se as oponentes seriam maiores, mais pesadas, mais hábeis ou se a estrategia tal ou outra seria mais adequada.

Passei o sábado inteiro em atividade e foram poucos e raros os momentos que esqueci do acordado para o dia seguinte, hoje. Amanheci mau humorada, querendo dormir e ficar em casa, acordei bem cedo, preocupada com organizar tudo. E claro, com a preocupação de carona, roupa e o que fazer, esqueci o alimento não perecível que deveria ser entregue na entrada para doação.

Cheguei super em cima da hora para pegar a carona, por um triz não fico para trás. Suando frio desde o momento que acordei, encontrei o restante da equipe e seguimos destino. Localizamos o local do evento e logo que chegamos, mais gente havia esquecido o alimento, procuramos um mercado e problema resolvido. Entramos no local do evento, estrutura bem simples e aguardamos o inicio enquanto mais gente ia chegando.

Atrasos a parte, muito comum nesse tipo de evento, e a busca começa, pelo biotipo de possíveis adversarias. Passa uma menina grande dali, uma magra acolá e a analise segue enquanto assisto as lutas de crianças. Tentando aprender e revisar golpes e estrategias enquanto assisto, morrendo de vontade de ir para casa. Quando uma das categorias de adulto começa percebo que o nível de dificuldade pode ser maior que o esperado.

O coração acelera, sofro com pontos tomados e golpes encaixados das lutas alheias. Obviamente tento repelir o pensamento que a minha viria. Tento lembrar de tudo de certo que consigo fazer nos treinos e de habilidades que me trazem segurança, ainda que elas não sejam suficientes para esse momento. Até que as atletas de categorias femininas são chamadas à concentração.

Agora sou toda vontade de chorar e ir embora, as meninas começam a chegar e pareciam gigantescas e eu pequeniníssima com a minha companheira de equipe super magra. Ai percebi que estávamos alimentando o ego e a segurança delas e que isso não é aconselhado. Convidei minha amiga para levantar e começar a aquecer e assumi minha postura de segurança de quem treina regularmente e sabe o que faz ali.

Vesti o personagem, as garotas já não eram tão grandes e eu aqueci tentando demonstrar o quão ágil posso ser. Os meninos da equipe pareciam tão ansiosos quanto as duas e assistiam da arquibancada. Nessa hora eu não sabia, mas minha luta seria apenas a penúltima e as garotas maiores formavam outra categoria, tínhamos apenas uma adversária.

Minha amiga perdeu para garoto que eu lutaria a seguir, ela não demonstrou lutar bem, se preservou muito, ganhou por ponto feitos bem no final e pareceu só saber pontuar daquela unica forma. Então eu estaria descansada, já havia visto a menina lutar e sabia que deveria usar minha velocidade para deixar ela mais cansada e imaginava que força também não seria problema, ainda que ela parecesse ser mais pesada.

Chegou a minha vez, por sorte nem lembrei de olhar a arquibancada e parecia estar tudo em silêncio, conseguia perceber pouco além do tatame e ouvia apenas a voz do mestre. Comecei acelerada, ele me dizia para continuar e a menina parecia desconfortável. Eu parecia estar ouvido a professora de dança que mandava percorrer todo ambiente, ficava girando pelo tatame e simulando alguns ataques para testar a atenção e o tempo de reação da oponente.

Ela, pelo visto, entendeu que tinha a intenção de cansa-lá e resolveu se fingir de poste. Pior, poste que encara. Eu comecei a ficar impaciente com a ausência de reação dela que tentava anular a dinâmica que eu tentava impor. Eu estava em um ritmo bom, ensaiando varias entradas até que veio o primeiro erro: puxei para guarda e fui punida. Pura e simplesmente por impulso, havia acontecido isso em uma das lutas anteriores, é um habito que nunca tive e não sei por que cargas d’águas reagi assim.

Voltamos em pé após a punição e não sei o que aconteceu no meio, só lembro do juiz conduzindo novamente a luta para o centro do tatame e já estávamos no chão. Os três primeiros minutos não valia pontuação, apenas finalização e os três minutos finais já seriam com pontuação.

Nessa parte a memoria já vem fragmentada outra vez e dessa vez nem senti aquela explosão de adrenalina que me faz reagir de forma mais intensa. E lembro de estar de guarda aberta, ela tentava passar e acredito que cheguei a dar alguns giros e boas defesas até que ela chegou na meia guarda e com pouco tempo para o fim passou, fazendo 3 pontos.

Eu já tinha punição, ela em algum momento tentou uma finalização de braço que me pareceu bem mal feita e um estrangulamento que não fez nem cocegas. Posicionou em geral sem o habitual desconforto que tentamos gerar para conseguir posições que geram pontos com maior facilidade, incomodando para gerar distrações. Mas ganhou, de forma justa, acredito eu que ganhou pela maturidade e combateu minha estrategia.

Eu me perdoo pelos erros que cometi, acumulo a vontade de ganhar de hoje que não foi suprida para próxima oportunidade e tenho agora, sede de mais treinos, correções para que venham melhores resultados. Acima de tudo a experiencia foi ótima, o evento foi bom, no geral, foi um aprendizado e motivação que irão agregar mais que uma vitoria poderia ser capaz de proporcionar. Mais uma sensação para o currículo da vida.

 

 

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