O hábito que me escapou

Por muito tempo fui exímia praticante do sedentarismo e me admirava com a capacidade das pessoas de acordar cedo e enfrentar o frio motivadas pelo esporte. Ao ir para o colégio, assistia no meio do caminho, antes de amanhecer por completo, militares correndo de short e camiseta na margem do rio. Mas a frente nas quadras tinham alunos e funcionários envolvidos com jogos, assistindo ou jogando.

Quando iniciei meus estudos, passei um bom tempo em escolas sem muitos recursos para tornar a educação física atrativa e de fato foi um martírio durante um longo período, eu sempre buscava formas de me ausentar. A partir da quinta série do ensino médio estudei em um local que não faltava nem recurso nem interessados, ainda assim não fui atingida e eu buscava sempre as atividades de menor esforço.

Até ai não havia despertado para nada que se vinculasse com esporte, nem ler, nem assistir e se o tema da redação era futebol, garantia de nota baixa. Quando sabia que a dança teria viagem e menor cobrança, ia para lá. Se a natação era mais fácil justificar falta, era minha modalidade escolhida, no futsal tinha chocolate de premio, lá estava eu mudando de modalidade. Nenhum interesse surgia.

Então formei no ensino médio, perdi todo o ritmo de formatura e atividades físicas do ensino fundamental. Fazia cursinho para prestar vestibular para escolas de engenharia militar à tarde e à noite cursava engenharia. Ninguém me incentivava praticar esporte nenhum, a insonia só aumentava, o estudo rendia pouco e o peso, junto com a insatisfação de minha forma física só cresciam.

Sempre fui uma criança rechonchudinha, durante o ensino fundamental e médio, graças a agitação do colégio, reduzi um pouco o peso e já foi o suficiente para descobrir a satisfação de manter o peso, ainda que não fosse o ideal. Dessa forma, por um ano, enquanto ainda estava no cursinho, não pratiquei atividade física e como consequência, tive um aumento de peso e a promessa que o ano seguinte entraria na academia.

Então, no inicio de 2012, sem que meus pais acreditassem muito, entrei na academia. Algumas vezes antes tentei barganhar em casa uma entrada na academia, sempre negada pela famosa “fase de crescimento” que no meu caso não durou quase nada, quase não cresci! Por uma semana visitei as academias do bairro, fiz orçamentos, aulas experimentais e conversei com conhecidos.

Após o tempo de decisão, apresentei a proposta para meu pai que assumiu ficar pagando a mensalidade para mim como presente de aniversário. Foi a última vez que ele aceitou me dar algo que se mostraria uma divida eterna, ele sofre as consequências até hoje. No final o meu critério foi preço e proximidade de casa e me mantenho na mesma academia até hoje. Já cogitei mudar varias vezes, mas entrei sem conhecer ninguém e fiz muitos amigos.

Sempre tive preconceitos, muitos, de gente que malha demais, cultuar demais corpo, querer ficar grande e outras coisas mais que associamos a malhar. Paguei a língua, malhar virou uma atividade necessária na minha rotina para manutenção do corpo e bem estar. Gosto de selecionar alimentos que proporcionem melhor tônus muscular e tento evitar gorduras e açucares, ainda que comer seja uma das minhas atividades prediletas.

Além disso roupas de academia viraram minhas prediletas e criei muitos amigos através do esporte. No inicio passava quase duas horas na academia para musculação e atividades aeróbicas pois não estava satisfeita com o quanto pesava. Com o tempo e o inicio de outros esportes abandonei aulas de aeróbica e por um bom tempo mantive a corrida como a reguladora do peso que delineava bem minha musculatura de bônus.

Nem eu acredito a quantidade de vezes que madruguei, no frio, com tempo nublado, de roupa curta para correr o percurso de determinada corrida ou um longão de fim de semana ou feriado. Passei a investir em tênis caros, que antes achava absurdo e mais acessórios, viseiras, meias. Comecei a me inscrever em corridas do ranking da cidade que era um evento super completo e por muito tempo minhas redes sociais ficaram completamente preenchidas por essas atividades.

Quantos amigos, quantas fotos, esses momentos me proporcionaram. Medalhas, camisas, um troféu e bolsas. Fiz corridas de trilhas, viajei parar correr, corridas com mais de uma etapa, outras noturnas, meia maratona, algumas com quilometragem menor. Carreguei minha mãe comigo e presenteei ela com a primeira inscrição de corrida que ela participou, hoje a corrida não está tão presente na minha rotina e permanece na dela.

Tantas lembranças e momentos, sem contar as lições de perseverança, paciência, concentração, sobre encarar limites e superar barreiras. Varias corridas, ainda lembro, durante o meio do percurso eramos puro arrependimento, até o momento de sorrir para o fotografo. Em outras situações parecíamos destruídos em certos pedaços do percurso até avistar ao longe o pórtico da chegada e a visão parecia reenergizar e lá estava a aceleração máxima do “sprint final”.

Foram quase dois anos participando da equipe de corrida da academia, por um ano participei de forma mais ativa do ranking e almejei pontuar e me esforcei, pouco, para tal. Foi um período super legal, de muita interação e pelo menos dois finais de semana do mês toda a equipe se reunia para tentar se superar e concorrer com as demais equipes. Hoje a equipe e o ranking não me parecem estar no mesmo ritmo, mas muitas pessoas mantem o hábito, vejo enquanto me desloco para faculdade ou algum treino.

Sinto falta da minha disposição para correr, mas nem me esforço para tal, pois sei que meu tempo não aguentaria mais uma atividade. Me realizo na corrida através da minha mãe e assisto ela continuar o que parei. Vira e mexe ela me chama, quer companhia, uma hora volto a experimentar esse gostinho de cansaço e prazer, que faz a gente levantar cedo e contrariar todos os instintos de aproveitar a cama para ir desbravar o esporte.

4~9-05

 

 

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4 comentários em “O hábito que me escapou

  1. Eu era totalmente sedentário até pouco tempo, gostava de futebol e tênis mas tive complicações na patela e nos tornozelos. Não posso mais fazer esportes de correr nem de saltar. Acabei pegando gosto por pedalar e caminhar, comecei e não parei mais. Desde o início deste ano, perdi quase 10kg, estou bem próximo do peso ideal pra minha altura, e esse hábito melhorou minha disposição para as outras atividades diárias 🙂

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    1. Uau, quase 10kg! E o ano está só no início… Faz parte dos meus planos melhorar minha relação com a bike quando for possível, já quis praticar triátlon. Depois que de começar é difícil conseguir largar, tudo melhora: refeições, qualidade do sono, humor.Vale a pena! E é sempre bom encontrar o esporte adequado para rotina e físico. 🙂

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