Por um desejo

Não sei de onde surgiu tão avassaladora paixão, sei que foi logo após a chegada da maioridade, por ai. Quando começa-se a pensar em carteira de habilitação e eu cheguei a conclusão que o mais adequado para mim seria uma motocicleta. Moro perto da faculdade, geralmente minha necessidade é de andar desacompanhada e não estou lá esbanjando dinheiro, uma moto seria perfeito.

A decisão em si foi racional e instintiva, ainda que as duas características sejam divergentes. Só havia tido uma oportunidade de subir em uma moto, sem capacete, em uma cidade do sertão da Bahia, sem asfalto, um piloto e duas na garupa. Foi providencial, meio tenso e não necessariamente prazeroso, confesso que fiquei com medinho e pulei fora assim que tive oportunidade.

Depois de dezoito anos completos, matricula na faculdade e um bom período de cursinho para escolas militares comecei os orçamentos para o longo processo de tirar a carteira de motorista. Para começar a habilitação para carro que meu pai apoiava e bancava e pelos meus cálculos caso o desejo por habilitação por moto resistisse sairia mais pratico apenas fazer adição de categoria.

Processo iniciado, aulas teóricas demoradas, de certa forma era até divertido, turma cheia, pessoas de níveis de escolaridade diferente, um ambiente descontraído. Prova de legislação, acordar cedo, leve clima de tensão e formalidade, algum tempo para sair o resultado e tudo OK. Passado isso começa a parte longa da saga. Aulas de rua, tudo parece difícil e impossível.

Comecei aprendendo a ligar o carro, aquela confusão básica de onde acelera, freia e embreagem. Embreagem, coisa misteriosa e monstruosa, fora do comum entender em primeiro contato. E depois de adquirir um leve e minimo controle do carro ganhei permissão para transitar, com instrutor e no carro da auto-escola, por ruas com o menor movimento possível.

Nervos a flor da pele, soava mais que em qualquer academia, tensão ao extremo no começo. Com o decorrer das aulas piorou muito o nível de tensão, problemas com aulas desmarcadas e remarcadas, necessidade de aulas extras e muito muito muito estresse envolvido. Como nada estava tão ruim que não pudesse piorar, começaram uma longa sucessão de seis exames com reprovação e só no sétimo de fato a carteira veio.

Esses vários exames e algumas aulas constituem um mundo de históricas que seriam dramáticas se não fossem cômicas. Envolvem lágrimas, controles de embreagem não feitos, muitas infrações leves, graves, gravíssimas e até eliminatórias. Mão e contramão esse vaivém de muitas aulas e treinos resultando em reprovação por muito tempo. E em um dia que amanheci de péssimo humor, fui fazer o exame por pura obrigação, pleno fim de semestre, com muito estresse envolvi e surpreendentemente fui aprovada.

Passei um tempo buscando preço de carros usado, procurando diferentes modelos, estudando sobre manutenção e economia de combustível. Tinha entre as marcas populares alguns prediletos e cheguei a conversar com meu pai sobre comprar. Meu pai, como bom brincalhão que é, não me levou a serio e apenas me deu um chaveiro de carro de presente pela aprovação. Chegamos a conversar sobre ele me passar o carro dele e comprar outro para ele, proposta que descartei, ao meu ver um carro 2002 já está no patamar de carro que dá muita despesa, não que eu conheça o suficiente, chutei.

Aguardei só o tempo da carteira chegar e ter certeza que depois de toda a luta eu de fato estava habilitada. Mal superei os obstáculos, desafios e lá fui eu outra vez, atrás da adição de categoria. Só que agora teria outro agravante: A desaprovação do meu pai e nenhum apoio financeiro. Eu tinha ideia de onde estava me metendo e o quão caro podia custar. Mas qual é o preço de um desejo? Ainda que fosse um desejo abstrato que nem tinha forma nem muito conhecimento.

O novo processo começou, agora com a cabeça cansada de um ano que durou a mineração da carteira de carro, de tão cara que saiu devia ser cravada de diamantes. E motos tem a peculiaridades de se tornar “jet ski” em chuvas absurdamente intensas e foi nesse contexto que dei meus primeiros passos rumo a andar de moto. Capa de chuva muito maior que eu, sapatos ensopados, aprendendo a ligar, me equilibrar, acelerar e frear.

Como começar a andar de bicicleta, com risco de tombo que poderia ser mais feio e mais caro. Eu não posso de ser que de fato tenho altura para andar de moto, é tudo uma questão de muita pontinha do pé, haja panturrilha, e pequenos piques de um lado para o outro para compensar os desequilíbrios. Foram minhas primeiras experiencias de fato com moto e não teve chuva, vento ou roupa molhada que diminuísse a minha satisfação.

Eu gostei da sensação de dirigir carro, gostei de aprender, mais ainda era um pouco cansativo e estressante e monótono. Já a moto foi identificação total desde o inicio, era incrível, mesmo naquele inicio patético que não sai do lugar. Descobri que tinha dificuldades de curva para um lado, lá vou eu repetir mil vezes, problemas com freada brusca, repete quinhentas, problema com arrancar em morro, repete sei lá quantas vezes.

Depois de dominar as marcações próximo ao estadio que simulam a moto pista, dominar é excesso de confiança, apenas concluir sem nenhum dano visível nem a moto nem a mim seria mais realista, comecei a fazer aula na pista. As aulas na pista ficavam mais caras mais eram exatamente como o exame, tirando a tensão extrema de ter examinadores para todo lado, gente reprovando, gente passando e gente assistindo. Muita gente só pode ser sinônimo de problemas.

E com a moto não foi nada melhor que com o carro, foi até pior, fui reprovada por nove vezes. E o sentimento de tudo dar certo nas aulas, nas últimas, que foram muitas e na véspera do exame e no dia absolutamente tudo dava errado. Em relação a carteira de moto quis poupar meus pais do sofrimento, aproveitar que eles não sentiriam no bolso para omitir enquanto não passasse.

E foram vários dias que não dormi com medo de não acordar ao som do despertador e perder o exame, pois minha mãe não estava sabendo para me acordar caso eu não conseguisse. Perdi pelo menos dois guarda chuvas em dias horrorosos e chuvosos que sai com guarda chuva em um braço e o capacete no outro e voltei engolindo o choro para não lançar suspeitas. Mas como mãe é mãe, ela apenas respeitava meu silêncio e ignorava os indícios.

Chegou um momento em que os instrutores me conheciam, os examinadores, em sua maioria, me conheciam da longa saga com o carro, sim eram os mesmos. E já ficava tão comum que conhecia gente no caminho, o pessoal que trabalhava na moto pista, outros alunos que apanhavam no mesmo ritmo. Já havia criado o hábito de sair do exame direto para academia para dissipar a cara de choro antes de chegar em casa.

No decimo exame, que foi no dia do meu aniversario, escolhi não assisti nenhum outro exame. Sentei com uma amiga que acabará de descobrir que estava gravida e precisava tirar a carteira  nesse exame pois não poderia tentar mais. Sempre as meninas que faziam exame na mesma moto que eu, me escolhiam para começar, tanto tempo treinando não me faltava segurança ainda que transbordasse ansiedade e tremesse loucamente.

Conversamos por muito tempo, enquanto ela lanchava e eu pirraçava falando sobre o possível gênio travesso do filho que viria. Até que chegou nossa hora de encarar a moto, os examinadores e a moto pista. E lá fui eu, quase sem respirar em cada cabine de parada em que os examinadores marcavam caso houvessem infrações durante o trajeto. Nem lembro mais o que aconteceu, que a sensação de ter passado foi tão intensa e absurda que só lembro da invasão de lágrimas.

E depois de mim, minha amiga, aprovada também. Demorei tanto para passar que acho que a responsabilidade estava pesando até para o instrutor, ainda que ele tenha feito um excelente trabalho e sempre buscou alternativas para me fazer corrigir erros. Em casa, meu pai só queria saber sobe reprovações e eu só queria saber de comprar a moto. Depois de tanto sofrimento eu teria de ser coroada com a moto que sonhei durante todo processo.

 

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