Única certeza

O menino maluquinho foi um dos filmes bem presentes na minha infância. As falas e piadas principais sabemos de cor e sempre completávamos enquanto assistíamos. Lembro de ver minha irmã imitar a panela na cabeça algumas vezes, desde sempre, gostávamos muito. Quando eu era bem novinha meu pai teve uma locadora e essa era uma das fitas de estimação (entregando que estou velha).

No filme, além das cenas engraçadas, brincadeiras e fatos cômicos lembro de um assunto mais sério que também é abordado. O filme narra a morte do avô do menino maluquinho de uma forma discreta e bonita. E hoje, quando descobri que meu vodrasto, padrasto da minha mãe, faleceu, a cena do filme, assim como a sensação que ela provoca me invadem como a primeira vez que assisti.

Não foi uma situação totalmente inesperada, há em torno de oito anos, apos um AVC ele vêm perdendo a vitalidade. Há algum tempo ele perdeu a maior parte dos movimentos e vivia de forma completamente limitada. Não acompanhei de perto todos os momentos, moro em estado diferente e faço visitas apenas durante as ferias. Fica em torno de dezoito horas de viagem de ônibus, em geral, fazemos uma visita ao ano.

Casa de avôs é sempre aquela brincadeira de estragar netos. E nesse caso não era diferente. Em pleno sertão da Bahia no minimo muito sorvete e picolé era garantido. Mas não era só isso, vovô Piu, mistério das antigas, ainda não sei de onde saiu esse apelido, tinha um ritual que envolvia todas as crianças da família. E se deixasse ainda entrava adulto na brincadeira de carona, sem contar que, neto é criança independente de idade.

A lei era seguinte, almoçava todo mundo perto de meio dia e depois começava a vigília. Quando era perto de uma hora da tarde ficávamos ouvindo o barulho do portão o primeiro a confirmar gritava: Vovô Piu! E ninguém sabia qual era o premio do dia: chokito, ruffles, coca-cola, o certo é que alguma coisa tinha. E dia após dia o ritual se repetia, independente da quantidade de neto que aparecia.

Tinha também o velho habito de pescar e os netos curiosos se reuniam para olhar temerosos para resultado da pesca. Viciado em futebol, tinha o rádio antigo que ouvia os jogos e sempre sabia todos os resultados. Sem contar a capacidade de GPS acoplada antes mesmo de existir GPS e com atualizações em tempo real que ninguém sabia de onde vinham, mas ele sempre sabia indicar o melhor trajeto e horário de ônibus.

Em relação aos hábitos alimentares, além de prover a diversão da garotada, era pura teimosia. Adorava muito do menos saudável e ainda assim não negligenciava as frutas da temporada. Marcou nossa infância com carinho doce, a risada longa é o senso de humor provocante. Espero que tenha encontrado um lugar que doce e fritura não faça mal para perpetuar o “carpe diem” inconsciente que sempre pareceu viver.

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6 comentários em “Única certeza

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