Meus heróis não morreram de overdose

Ainda que eu admire artistas que morreram de overdose, eles não são meus heróis. E se fossem não seriam lembrados por mim pela forma que morreram, e sim pela maneira que em algum momento encaram a vida. Meus heróis não vestem capas, não ficam verde (aah…), não possuem superpoderes, nem lutam contra maquinas gigantes ou figuras maléficas de outro mundo. Meus heróis enfrentam todos os diariamente as batalhas da vida.

Admiro pais que lutam pela educação de filho, seja através de uma vaga na escola publica ou bolsa em escola particular. Admiro professores que tentam transformar a qualidade da escola pública, trabalhando pelos alunos, na qualidade do ensino. Admiro famílias que sonham com maior qualidade de vida, maior acesso a educação e saúde aos seus filhos.

Alguns de meus heróis acordam bem cedo, outros dormem bem tarde e tem até os que quase não dormem, mas todos vivem muito. Alguns pensam muito em trabalho, outros em esporte, tem também os que vivem pelos filhos. Eles trabalham como empregados, professores, motoristas, comerciantes, empreendedores entre outras mais ocupações. Alguns têm mais de um emprego, mas todos buscam fazer aquilo que se propuseram a fazer da melhor forma possível.

O professor que tem compromisso de não só cumprir o conteúdo, mas preparar para vida e no mundo de hoje, falar sobre ética. O motorista que se preocupa em aguardar os idosos e gestantes se acomodarem ou se uma jovem desceu em um ponto deserto sozinha. Pessoas que são capazes de ouvir e, dentro de suas limitações, tentam suprir as necessidades que encontram nas pessoas, seja por atenção ou incentivo.

Admiro aqueles que sabem pouco e ainda assim dividem tudo que sabem em um treino, uma aula ou uma palestra. Aqueles que sabem muito recebem também a minha admiração quando dividem o que sabem, seus erros e acertos, ainda que seja necessário se expor. Como é bonito ouvir um testemunho com sinceridade de uma vida com obstáculos, que é tão fácil de encontrar, encarados com leveza e agilidade.

É ai que volto atrás, quando disse, no inicio que meus heróis não possuíam superpoderes. Possuem sim, alguns mais de um, são poderes que se usados para o bem podem ter um alcance incrível. O primeiro deles é a capacidade de ler e entender pessoas, suas necessidades, anseios, seus medos e usar isso para suprir, apoiar e incentivar.

Outro poder é encarar a realidade de formar positiva, sem delírios, nem euforia, mas buscar tornar as sensações boas mais duradouras o que já implica em outro poder, que é o de perdoar. A proatividade, coragem, determinação, resiliência e outros atributos delineiam e reforçam alguns dos poderes.

As dificuldades são, neste caso, as mães desses super heróis, quando a necessidade surge, lançam novos superpoderes. Seja falta de emprego, gravidez inesperada, problemas financeiros, ou a simples rotina de brasileiro que não é das mais suaves. E apesar de achar super heróis de quadrinhos e televisão legais, ver um testemunho de uma criança que tem como inspiração o pai gari, caminhoneiro, trabalhador assalariado, lutador brasileiro é de se orgulhar.

Gosto de dar valor a heróis possíveis, destes que esbarramos nos ônibus, em filas, nos supermercados. Esses que contam uma historia bonita de privações e dificuldades com olhos marejados. Aqueles que carregam nos bolsos símbolos das conquistas de filhos ou da saudade dos pais. Que se preocupam com futuro, com os idosos da família, com os que passa dificuldades.

É bonito e grandioso ver ações sociais na televisão e em projetos que ajudam centenas e milhares de pessoas. Mas coisas bem menores me admiram da mesma forma. Ensinar um esporte na comunidade carente, doar tempo, roupa, alimento a uma família mais simples do bairro. Incentivar a leitura e a educação para que mais pessoas tenham acesso ao poder transformador da educação.

Meus heróis não possuem raça especifica, nem cor, não pertence a nenhuma classe social especifica, nem possuem uma só religião. Tem alguns altos, outros magros, os baixos, gordos, ricos, pobres, negros, índios, brancos. A unica coisa em comum: São felizes. Ainda que vivam momentos tristes, na maior parte do tempo são felizes, com o que fazem, com quem amam, com a vida que levam.

“(…)Hoje o herói aguenta o peso
Das compras do mês
No telhado, ajeitando
A antena da tevê
Acordado a noite inteira
Pra ninar bebê…

Chega de bandido pra prender
De bala perdida pra deter
Eu tenho uma ideia:
Você na minha teia…

Chega de assalto pra impedir
Seja em Brasília ou aqui (…)”

Homem Aranha
Jorge Vercillo

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9 comentários em “Meus heróis não morreram de overdose

  1. Herói é quem nos provoca admiração. E inveja. Do tipo saudável. Do tipo “quero ser assim também”. Obrigado pelo texto 🙂 De tanta tristeza no mundo, já tinha me esquecido dos heróis em quem temos de nos espelhar. E que trazer o positivo que existe é melhor incentivo que apontar o errado e não pode ser deixado de lado.
    Beijinhos.

    Curtido por 2 pessoas

      1. Acho que o facebook, nesse quesito, faz mais mal do que bem… É tanta coisa negativa por lá… lol
        Fica cada vez mais difícil encontrar, lá, coisas boas 🙂

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