Premiado

Tem quem acredite que existem pessoas escolhidas, especiais ou com missões mais nobre na terra e uma infinidade de coisas do gênero. Na verdade não é exatamente esse o assunto em pauta aqui, escrevo para falar de um escolhido em especial. Escolhido não é bem o termo mais adequado, seria na verdade o alvo central do supra sumo da minha pentelhice e pegação no pé.

E quando digo pentelhice é um conceito amplo que varia de piadas e gracinhas até broncas e chiliques. Caso, de alguma forma, a minha imagem se assemelhe a algo fofo ou meigo, já aviso de imediato, não se deixe enganar. Não sou meiga, nem fofa, minha pentelhice é chumbo grosso, não recomendo. Haja força para aguentar, é claro que frequentemente recebo a reação a altura

Esse sobre o qual vos falo que me fez a sua imagem e semelhança é nada mais nada menos que meu pai. Cabeça dura, sabichão, cheio de bronquinhas, bicudo, dengoso, mimado e exatamente como eu. Meu exemplo de caráter, boa conduta, respeito, gula (haha), inteligencia e sabedoria. Sempre esteve ao meu lado, para apoiar, incentivar, criticar e zoar (sempre mesmo!).

É quem mas sente orgulho das minhas conquistas, capaz de sofrer mais que eu pelas dificuldades. Vire e mexe tenta me causar felicidade extrema com comida, e consegue, sou dessas. Autor dos apelidos mais debochados desde sempre: tuelhona, mosquita, bombadona fedorenta, meu garoto e sabe-se lá o que mais. O maior reconhecedor dos meus esforços, quase sempre sem confessar abertamente ou elogiar, mas sempre observando o levantar cedo, horas estudando e coisas afins.

Me ensinou a importância do caráter, honrar compromissos, respeitas todas as pessoas e tratar com igualdade sempre. Sempre me incentivou a ter prazer pela leitura e conhecimento. Me deu presentes que estimulavam a curiosidade e a vontade de aprender: almanaques, coleções de revistas, microscópio, jogos educativos. sempre foi exemplo e continua sendo, mostrando que aprender, evoluir e amadurecer não tem idade.

Essa semana meu idoso fica mais idoso e com tantas características e visões que percebo ter herdado dele parece incapaz de esconder ou omitir qualquer informação que eu não perceba. Sei quando está blefando, mentindo ou discorrendo sobre algo que não faz ideia do que seja. Sei quando está preocupado, cansado, irritado e quando está relaxado e posso contar coisas ruins ou fazer pedidos.

Não nego que preguiça é uma das suas características marcantes, outra delas é o zelo e o capricho. Já fez pequenos trabalhos manuais, culinários, com madeira, metal com muito cuidado e demonstrou muita capacidade. Hoje mesmo, sai de casa antes dos almoço, enquanto saia ele com as mãos cobertas de um grude de farinha afirmava estar fazendo macarrão. Cheguei em casa desconfiadíssima, com medo do que iria encontrar e para minha surpresa havia um macarrão fenomenal. Quem diria que aquela brincadeira de fato viraria o almoço.

Meu pai, assim como eu, não é grande adorador da arte de demonstrar sentimentos. Todo o carinho que pode, nunca me deixou faltar, demonstra em pequenas coisas do dia-a-dia. É o trazer doce de leite no final de semana e ficar esperando minha reação ao encontrar, ou a gargalhada com o meu grito de satisfação. É o se deliciar ao lembrar qualquer piadinha boba ou provocação rotineira. É contar a cada amigo que encontra cada coisinha alegre que fizemos no mês.

E brigamos direto, discutimos, discordamos. Eu cobro de cá, ele cobra de lá, bico e bronca dos dois lados mas sempre com a intenção de acrescentar e fazer bem. Quando brigamos é por preocupação, excesso de zelo, poucas vezes um egoismozinho ou falha mesmo. E se erramos, sempre vem a tentativa de se corrigir e reconciliar. As criticas, em tons suaves ou não, sempre tem objetivo de trazer reflexão e crescimento.

Meu pai sempre me deu liberdade e opções de escolha, me manteve ciente que eu deveria estar atenta apenas as consequências que precisaria enfrentar. Sempre me manteve ciente das responsabilidades sempre disponível para auxiliar. E já fiz trabalhos em grupo, que isentei o grupo e fiz com meu pai. Fazer trabalho em dupla com meu pai sempre me acrescentou muito, além de curioso, sempre se esforçou para me proporcionar o máximo e presentear meus esforços.

O mesmo que comemorou que teria duas filhas meninas e não precisaria ensinar a  jogar futebol adora me pirraçar pelos esportes que escolhi. Que toda vez que alego estar estudando, me chama de malandra e diz que o máximo que faço é frequentar aulas. Diz que tenho ego de argentino, diz que vivo “enrolando lero”. Se assusta quando acorda e encontra o café pronto e me vê quase saindo.

Aquele que foi totalmente contra a minha iniciativa de tirar carteira de moto, hoje quem mais confia no cuidado que tenho no trânsito. Uma das pessoas que mais me conhece e que ainda assim não pede a capacidade de se surpreender quando faço algo novo. O que primeiro a ” cortar meu barato” e é o primeiro a acreditar que sou capaz do que ainda nem sei que sou. Uma das pessoas que mais me ensina e se dispõe a aprender comigo.

*-*

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6 comentários em “Premiado

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