Sobre call center[1]

Sempre conheci as historias de call center do lado de cá do telefone. A premissa principal que imaginamos frequentemente é que tem alguém de má vontade nos fazendo perder tempo do lado de lá. Assisti diversas vezes meu pai sendo indelicado e mais ainda não sendo atendido. Inúmeros problemas com internet e telefone, isso sem citar os vendedores.

Foi ai que em um período de greve da faculdade, probleminha recorrente na federal ainda mais com intensas crises politicas, cheguei a conclusão que precisava experimentar um emprego oficial com carteira assinada. Entrei em todos os sites de empregos e estágios e me cadastrei, preparei um currículo praticamente vazio devido a ausência de experiencia. E planejei no dia seguinte sair cedo para distribuir o currículo e caçar oportunidades.

É claro que a vontade de carteira assinada foi desencadeada por diversos fatores. A greve é um ótimo motivo, mas não é o único. Com a greve já era possível perceber certo incomodo do meu pai em me ver em casa e resolvi me antecipar antes que ele expressasse tal incomodo e gerasse um desconforto. Além disso foi o ano que frequentei o campeonato fluminense de rugby, só com paitrocínio e a necessidade de dinheiro com a vontade de viajar só aumentavam.

Pensei em qualquer vaga no comércio, em empresas de créditos ou nos famosos call centers que são empresas locais famosos por poucas exigências, comércio nem sempre. Já para deixar meu pai satisfeito, aproveitei para acordar bem cedo e pegar carona, para valorizar o feito. Andei, andei e andei, distribui em uns três lugares aquele currículo vazio e cheguei em casa cansada sem nenhuma expectativa.

No dia seguinte já amanheci pensando, procurar emprego foi extremamente cansativo, melhor deixar para o futuro essa coisa de trabalhar. Foi ai que resolvi colocar em prática outro desejo incubado e fui buscar um local para praticar jiu jitsu. Encontrei, comecei a treinar em um local de certa forma longe de casa, a principio por curiosidade, sem saber chegar lá de moto por inexperiência no transito e o medinho de sempre.

Até esqueci que meu currículo estava rolando por ai e que eu tinha procurado emprego. Então recebi uma ligação, estava na rua, ainda bem, meu celular geralmente fica sem sinal dentro de casa, ainda bem que atualmente ligação não é o foco. Era uma empresa de call center, que eu nem lembrava ter me candidatado, convidando para o processo seletivo na segunda-feira, oito horas da manhã. Para melhorar localizada bem perto de onde havia começado a praticar jiu jitsu.

Não sei se foi a preparação para o concurso do colégio militar ou o gostinho de adrenalina, mas sempre acho excelente aquele momento de hesitação e expectativa que antecede os processos seletivos. Nesse caso, que fui por livre e espontânea vontade, meu pai nem era muito a favor por causa da fama desse tipo de trabalho de ser desgastante e desagradável, estava dentro do possível, tranquila.

Aquele aglomerado de candidatos se formando até ser conduzido para a sala que a psicologa conduziria o processo. São oportunidades excelentes essas experiencias, adoro observar como é conduzido esse tipo de seleção, fico tentando entender os motivos de cada pergunta e a conclusão que tiram de cada comportamento de candidatos. Sou uma pessoas bem segura, mas nada tranquila e me divirto até com as minhas reações.

Durante as etapas do processo o grupo foi se reduzindo, as necessidades pinceladas seriam algo relacionado com a capacidade de comunicação, digitação e alguma habilidade com computador. Assim como eu haviam mais alunos da universidade federal, de vários cursos, o que me vez imaginar que a nossa turma teria um jeito peculiar e uma cara bem jovem.

Nesse dia, nós os peneirados, saímos com guias para exames médicos e documentos para apresentar ainda na mesma semana. Para a maioria tudo era novidade e até meus pais assistiram com curiosidade, eu, sempre evitei falar ao telefone até com conhecidos estava me dispondo a atender desconhecidos, possivelmente furiosos, por longos períodos do dia, inclusive fim de semanas e feriados.

Passado os exames, documentos entregues, tínhamos a data do inicio do treinamento marcado, no total seriam trinta dias. No último dia de treinamento eu tinha uma viagem marcada com meus pais, tudo reservado hotel, passagens, problema que deixei para encarar quando se aproximasse. Me afeiçoei demais a turma de treinamento, ouvia de tudo, riamos de tudo, brincávamos e nos envolvíamos como um todo. Na identificação mesmo eu fazia parte da pequena turma dos caretas, mas foi muito divertido o tempo que dividimos fiz boas amizades e tínhamos longos períodos a toa e lanches.

O que não se repetiu findo o treinamento, que teríamos duas pausas de dez minutos, se houvesse fila no banheiro nem isso daria tempo. A pausa de vinte minutos que era o suficiente para subir os três andares de escada engolir algo e descer, aprendi da pior maneira que não era tempo suficiente nem para o chá esfriar. É tínhamos a meta de tirar essas pausas no momento exato que havia sido estipulado e havia uma meta que pontuava e era uma ginástica de fé e habilidades manter esse índice alto.

Nosso salário era exatamente o mínimo e bater metas só servia para que concorrêssemos as folgas nos feriados. Isso já era motivo suficiente para que surgisse o famoso “sangue nos olhos” e batalhávamos assiduamente para alcançar as metas. Por sorte o supervisor que acompanhava minha campanha, pessoas responsável por resolver ou criar problemas diretamente na posição que eu ocupava, era uma pessoas calma, paciente e tranquila, contribuiu muito pela minha permanência durante o tempo que trabalhei lá.

Logo que terminamos o treinamento, depois que descobri que não havia sido mandada embora, como fui ameaçada, por faltar o último dia de treinamento. Experimentamos uma sensação aterradora, um inferno em terra, que era conhecido carinhosamente como célula baby. É como chamamos o primeiro dia de atendimento que a ligação de clientes cai que nem um meteoro fumegante no nosso colo. Descrever essa situação já acelera meus batimentos e logo o sorriso de desespero se segue.

Tamanho é a devastação que a situação nós acomete que chamávamos os atendentes experientes que iam nós ajudar de anjinhos e quando não havia nenhum livre no momento em que estávamos atendendo, sentíamos até o lacrimejar a brotar no rosto. A minha turma teve o horário de treinamento alterado para célula baby, por causa da disponibilidade de computadores livres, começávamos a atender tarde da noite e consequentemente, eramos liberados mais tarde ainda.

É revivendo pela escrita alguns desses momentos que percebo o quanto me marcou e a diversidade de sentimentos que provocou. Como o post já está ficando extenso e a história parece se realimentar, a cada fato narrado lembro de mais dois fatos desencadeados achei por bem fragmentar. Fica para capítulos futuros mais sobre a tenebrosa célula baby e a sucessão de impressões e sensações que essas oportunidades me causaram.

 

 

 

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4 comentários em “Sobre call center[1]

    1. A rotina de trabalho fim de semana e feriado e tão intensa que o primeiro post seguiu um caminho bem diferente do que imaginei de cara. Vou lembrando de tanta coisa quando começo a escrever… mas vou continuar sim, só falta conseguir organizar as ideias.

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