Correr com obstáculos

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E o clima do feriado parece acompanhar meu humor, tempestade total lá fora. Nada como buscar lembranças boas para restabelecer a paz interior. E passeando pelos rascunhos, eis que encontro o gostinho de satisfação de realizar super desejos e transpor obstáculos. Só de ver as fotos posso sentir toda a vontade acumulada de participar dessa prova e a satisfação durante o percurso nas duas vezes que participei.

Primeiro vou explicar de onde surgiu essa vontade louca de correr obstáculos. Eu como corredora, sou um ser atípico, como nas demais coisas também. Em geral as pessoas alcançam um velocidade x, que se torna algo como que a zona de conforto, com treino e avaliam para determinado percurso a velocidade confortável. Já a minha zona de conforto parece ser o desconforto. Se eu escolher uma velocidade acessível e correr o tempo todo nela, acho um tédio.

Em geral, gosto de corridas com aclives e declives, vegetação, obstáculos ou qualquer coisa que quebre a mesmice de só correr. Ainda que os eventos de corrida por si só já tenham muitas quebras na monotonia, quanto mais melhor. E em um X-terra, que é uma corrida em um local próximo de uma represa, com algum percurso com mato e vegetação ouvi alerta o relato de alguém que correria obstáculos.

De cara já se tornou uma meta, faltava a analise de viabilidade financeira e logística, mas a vontade logo ficou armazenada em forma de ideia fixa. Pesquisei, pesquisei e pesquisei, descobri todos os detalhes, avaliei cada obstáculo. Parti para a segunda etapa, convocar mais interessados para partir para essa aventura comigo. Etapa frustrante e sem resultado. A primeira corrida de obstáculos, assim que ouvi sobre o assunto, assisti contrariada e com água na boca pela TV.

E foi assistindo que avisei em casa, que se ninguém iria comigo, tudo bem, eu iria sozinha. E por um tempo o desejo ficou latente e incubado, até que o assunto surgiu novamente enquanto eu conversava com um até então desconhecido que me incentivava a não para enquanto corria a meia maratona da cidade. E que novela mexicana sem final é correr uma meia maratona. Ainda bem que dá para fazer amizades e receber incentivos.

Nesse longo trajeto o assunto surgiu novamente, nem sei como, mas pude ouvir o relato de quem havia participado da prova que eu estava enlouquecida de vontade de participar. Final da corrida, mancando para variar, trocamos contato e prometi que no próximo Bravus Race estaria lá. É claro que só eu me levei a sério, mas não pensei duas vezes quando recebi o e-mail falando a respeito da pré venda.

Reservei o kit de atleta, ciente que não saberia chegar no local da competição nem como me deslocaria no RJ. Entrei em contato com amigos do facebook que haviam marcado presença e apenas aquele que eu havia conhecido na meia maratona havia comprado de fato o kit. Não fazia ideia de como funcionava ou como eram divididos os pelotões, escolhi um dos listados em um horário que julguei conveniente.

Minha mãe se desesperava sabendo que eu planejava ir para o RJ sozinha, sem saber como chegar no local desejado nem em nenhum outro por lá. Não sabia se reservava Hostel, se ia direto, todas as alternativas pareciam igualmente perigosas. Na época ainda estava trabalhando no call center, precisei sair cedo e ir direto para a rodoviária. Até o fim de semana anterior ao evento nada estava definido.

Para piorar, é obrigatório a assinatura de alguns papeis que isentam a organização do evento de responsabilidade pelos riscos que iremos correr durante a prova. Eu como sempre reajo a essas coisas com boas risadas o que aterroriza minha mãe. Na véspera de viajar as coisas se acertaram, enviei os documentos assinados para o amigo de corridas assim como permissão para pegar meu kit.

Fui bem recebida na rodoviária e já haviam acertado com um vã para nos transportar até o local do evento. Era um grupo grande que eu não conhecia e na portaria do evento outro grupo se juntou ao nosso. E chegamos lá bem cedo, com objetivo de pegar o percurso pouco degradado pelo excesso de lama e de circulação de pessoas. Ouvi muita gente que havia participado de outras edições insatisfeitas com algumas coisas.

Eu estava maravilhada e sonolenta, ainda quietinha por pouco conhecer os companheiros de grupo. Quando o grande grupo foi dividido por pelotões fiquei no grupo com vários meninos que acabará de conhecer. De cara eles se mostraram preocupados e temerosos, me julgaram pelo tamanho muito provavelmente. E na concentração eu já me encontrava mergulhada em lama.

E enquanto o pelotão anterior se distanciava, o que eu estava participando se aquecia e bradava o hino e alongava. Todo mundo ansioso e curioso, aquele monte de etapas que eram completamente novidade. E para mim tinha aquele gosto de conquista especial de ter chegado lá sem o apoio de quase ninguém. Euforia, admiração e agitação me consumia enquanto da área de concentração eu ouvia o outro grupo chegar e atravessar o primeiro paredão.

Quando é dada a largada lá vamos nós rumo a paredões bem maiores que eu. De inicio buscava logo um fresta entre a madeira para subir sem ajuda, as vezes dava, outras não. Como nos primeiros muros haviam muitos grupos concentrados não dava para pegar impulso e subir sem machucar ninguém. E rapidamente os meninos se prontificavam a ajudar. Subia na perna de um, impulsionava o corpo com os braços e se precisasse de um impulso final eles ainda direcionavam com um empurrãozinho.

No primeiro pura empolgação e euforia, no segundo, terceiro, quarto e quinto também. Do sexto em diante já começamos a nós perguntar se não ia acabar. Algumas vezes podíamos rastejar por baixo ao invés de escalar. E quanto mais os muros se repetiam na nossa frente mas parecia fazer sentido o nome: “muro das lamentações”. Quando julguei que não aguentaríamos mais um desse, piorou muito! Era um muro completamente inclinado passamos alguns instantes observamos que tipo de feitiço deveríamos fazer para chegar do outro lado.

E chegamos, alguns ralados, com membros doloridos, alguns tombos para conta. Nada demais e tinha muito mais pela frente. Lembro de muitas poças de lama no meio do caminho e algumas pessoas de roupa branca que soava como um desafio aos demais que tentavam suja-los. Durante o trajeto os meninos arrumaram algum adesivo com o símbolo da prova e amarraram na cabeça e eu, que não resisto, segui o time.

Com desenrolar das provas eles perceberam que não precisavam se preocupar e começaram a querer descobrir como eu me preparava. Lembro de provas que foram agradáveis outras que foram terríveis. Me diverti demais com os meninos e com os demais que participavam da prova. São aqueles típicos eventos que estimulam colaboração e interação construtiva e superei muitos obstáculos que me assustavam nas fotos.

Durante o percurso adquirimos tanta confiança nos companheiros de prova que eu que morria de medo do Monte Bravus, que é tipo uma pista de skate para subir correndo, corri sem pensar até alcançar um braço que me suspendeu. Foi mágico! A Sibéria foi assustador, haviam acabado de suprir o tanque com gelo quando entrei, mergulhei até encontrar uma fissura rente ao solo para atravessar para o outro lado. Assim que passávamos deste ponto havia um posto de hidratação e adivinha: Ninguém queria água gelada! Que ironia, não?

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Encerro por aqui o post, que já vai ficando mais longo que o habitual e quem sabe não volto a contar sobre os demais obstáculos ou a segunda versão da prova que participei. E o que fica desse tipo de lembranças é o valor de correr atrás do que vale a pena, enfrentar medo e desafios. Se permitir arriscar e conhecer, foi maravilhoso a sensação nova que experimentei assim como os amigos que fiz, super recomendo.

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6 comentários em “Correr com obstáculos

      1. Puxa! Em Minas é bem difícil gostar de Surf mesmo! Praticar, então!
        Isso me faz lembrar uma historinha rápida:
        Estava em uma praia – há 2000 anos atrás, qdo um amigo, que também era bem menino, veio correndo feliz, tinha acabado de conhecer um cara, dono de uma barraca de lanches – ali da praia onde estávamos –, que tinha dito ter sido campeão de Surf Mineiro!!!!kkkkk
        Imagina como este moleque foi “zoado”?!
        Até hoje rimos desta história! kkk

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      2. HAHAHA É engraçada a irônica identificação do mineiro com o mar! Aqui na Universidade federal de Juiz de Fora, bem longe do mar, carregamos o título de Federal do Litoral! Vai entender?! kkkkk

        Curtido por 1 pessoa

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