Quando estive em Pasárgada

Como não bebo nem faço uso de drogas, não é delírio. Ainda assim é exatamente de Pasárgada de Manuel Bandeira que estou falando. Com os alcalóides, bicicletas, burro brabo e pau de sebo. Claro, agora sim, confirmado, louca de pedra. Só que não! Pasárgada se materializou para mim em um trabalho de colégio, realmente eu já fiz de um tudo nessas atividades que valiam nota.

Não consigo passar em frente aquela pracinha pequena e circular e afirmar veemente: Pasárgada! E como pensamos em todos os detalhes, a cada elemento narrado tenho a imagem da representação que criamos. E quando vejo o poema vinculado com outras imagens ou imaginações, reprovo instantaneamente. Eu vivi Pasárgada! Naquela praça, entre meus colegas de turma na época e com aqueles objetos e cenários que tínhamos no dia.

Não lembro muita coisa sobre o objetivo do trabalho, nem sobre o conteúdo ministrado ou sobre discussões contextualizadas. Contudo, se o objetivo de alguma forma passar por perto de causar intimidade com determinadas obras, alvo acertado em cheio. Pasárgada se tornou concreta e clara, pertencente a minha vida, em uma tarde de um final de semana.

Lembro que enquanto ensaiávamos nossa encenação do poema tentávamos criar tomadas marcadas para encaixar com a musicalização do poema. Seria digno de morrer de vergonha se não tivesse sido hilário e super valido para nota e aprendizado. Usamos a melodia de uma musica que estava fazendo sucesso na época e encaixamos com força brutal o poema que tentamos tornar musical.

E como é típico das coisas que faço, me dedico intensamente e sempre faço de reféns meus familiares que se vêm obrigados a ceder as lamuria e ajudar. Minha irmã foi a escolhida para realizar o processo de forçação de barra que era adequar o poema a música e pior, cantar. Feito isso conciliamos com o mico de encenar. Lembro de tomadas e cenas soltas, uma mais engraçada que a outra, tudo feito as pressas na pracinha e na casa de um de meus colegas.

Aqueles que aceitarem o desafio deixo a música aqui para que tentem encontrar o tom e imaginar a graça:

De Tanto Te Querer
Jorge e Mateus

Larga tudo e vem correndo
Vem matar minha vontade
Já faz tempo que eu tô sofrendo
Mereço um pouco de felicidade

Larga tudo e vem correndo
Pra eu mergulhar no teu sorriso
Me arranca desse inferno
Me leva pro seu paraíso

Eu não desisto do que eu quero
Mas não me desespero
Te espero
Na tarde quente ou madrugada fria
Na tristeza ou na alegria

Ficar sozinho não rola
Mas amor não se implora
Nem se joga fora
O amor a gente conquista
E não há quem desista
Se o coração chora

Chora com vontade de te ver
Chora com saudade de você
Chora às vezes eu nem sei por que
Deve ser de tanto te querer
Iêêêêê
De tanto amar você

Eu não desisto do que eu quero
Mas não me desespero
Te espero
Na tarde quente ou madrugada fria
Na tristeza ou na alegria

Ficar sozinho não rola
Mas amor não se implora
Nem se joga fora
O amor a gente conquista
E não há quem desista
Se o coração chora

Ficar sozinho não rola
Mas amor não se implora
Nem se joga fora
O amor a gente conquista
E não há quem desista
Se o coração chora

Chora com vontade de te ver
Chora com saudade de você
Chora às vezes eu nem sei por que
Deve ser de tanto te querer
Iêêêêê

De tanto amar você

Hoje confesso que mal consigo separar na cabeça a letra original da adequação que fizemos e acho que jamais esquecerei os primeiros versos do poema, basta relembrar a melodia. Em algum lugar na internet devem haver alguns registros dessas gracinhas, é notável a criatividade humana frente a necessidade, ainda que seja de alguns pontos na nota final.

Lembro de discussões sobre como representaríamos a rainha, o pau de sebo ou quem seria o burro brabo. Tinha a Rosa que contava histórias ao lado da piscina, a cama escolhida e a Rainha Louca de Espanha, até as prostitutas bonitas. Cenas improvisadas, gravação caseira, áudio caseiro, muita brincadeira e várias risadas. E assistir o conteúdo do demais grupos da sala foi mais uma diversão. Bom fazer trabalhos que contagiam e despertam a imaginação.

Não sei se os homenageados que tiveram as obras interpretadas pela criatividade da garotada se sentiriam honrados. Mas através das imagens simples e cotidianas, vista pela ótica imatura de crianças em fase de aprendizado eternizaram obras importantes nas nossas memorias. E é tão bom quando o conhecimento chega de forma leve e agradável, se armazena em forma de lembrança boa e não de obrigação.

Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s